OBJETIVOS DA LIÇÃO
Explicar a preexistência e a divindade do
Verbo
Mostrar a atuação do Verbo na criação e como
fonte de vida e luz
Ressaltar que o Verbo encarnado é a plena revelação do Pai
INTRODUÇÃO
O prólogo do Evangelho
de João apresenta o Verbo eterno como Deus, Criador e Revelador. Ele se fez
carne e revelou de forma plena e completa a glória do Pai. O apóstolo João afirma que viu a
glória do Deus Unigênito, cheia de graça e de verdade.
Nesta lição, veremos que a encarnação de Jesus Cristo é a expressão máxima
dessa revelação. É o momento em que o invisível se torna visível, o
eterno entra na nossa contagem do tempo e o que era impossível de compreender
se manifesta entre nós.
Aula
em grego de João 1, 1-4: https://www.youtube.com/watch?v=lm_3wvk_58g
PALAVRA-CHAVE: VERBO
NOTA: O termo "Verbo" no Evangelho de João é
uma tradução do grego Logos (λόγος), um conceito profundo que une a tradição
filosófica grega à teologia judaica para descrever
a natureza divina de Jesus Cristo.
Logos aparecem no grego
bíblico (Koiné) em João 1, 1:
·
Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος,
καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.
- En
archē ēn ho lógos,
kai ho lógos ēn pros ton theón, kai theós ēn ho lógos.
- Tradução
ARC: No
princípio era o Verbo
(Logos), e o Verbo estava com Deus, e Deus era o Verbo.
E Davar aparece no Hebraico
em João 1, 1 apesar de o Novo Testamento não ter sido escrito originalmente em
hebraico, mas as traduções acadêmicas (como a da Sociedade Bíblica de
Israel) utilizam o estilo do hebraico bíblico:
בְּרֵאשִׁית הָיָה הַדָּבָר, וְהַדָּבָר הָיָה אֵצֶל הָאֱלֹהִים, וֵאלֹהִים הָיָה
הַדָּבָר׃
- Bereshit
hayah ha-Davar, ve ha-Davar hayah etl ha-Elohim, ve-Elohim hayah ha-Davar.
Observação teológica da qual já falei dezenas de vezes nas
nossas aulas: A
primeira palavra no Evangelho de João, Bereshit, é a mesma que inicia o livro de
Gênesis 1:1, criando um paralelo direto entre a criação e a preexistência de
Cristo. O termo usado para Verbo no hebraico é Davar (Palavra).
Veja a explicação nesse vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=sfPqRWtVGuU
1. Etimologia e Significado
- Origem
Grega (Logos): Deriva da raiz leg- (falar, reunir ou
contar). Daí vem o termo Légo (falar).
- Légo foca mais no conteúdo do
que é dito (o que se diz). Enquanto Laléo foca mais no exercício
da fala ou na emissão da voz (o som, o ato de
falar).
- No
grego moderno,
hoje na Grécia "falar" é miláo (μιλάω).
(Miláo Helenika/ eu falo grego).
Logos além de "palavra" ou
"discurso", carrega também os sentidos de razão, lógica, ordem e proporção.
Na Tradução Latina (Vulgata) aparece (Verbum) , termo que deu origem ao
português "Verbo".
“In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus
erat Verbum” (Evangelium secundum Ioannem, 1,1)
Na gramática, o verbo
é a palavra de ação; na teologia, é a Palavra viva e criadora de Deus.
2. O Logos na Filosofia
Quem usou primeiro foi o filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso (c.
535–475 a.C.) foi o primeiro a dar um sentido técnico ao termo. Para ele, o Logos era
a lei cósmica universal que mantinha a ordem e a harmonia entre os opostos no
universo.
Depois o Estoicismo se apropria do termo. Viam o Logos como
a "Razão Universal" ou o princípio ativo (fogo divino) que permeia e
governa toda a matéria.
Vídeos sobre o Verbo
na Filosofia Estoica: O Logos de João, O Logos
Filosófico e o Logos de João, Os três Pilares do Estoicismo, Estoicismo x Cristianismo, o
Triângulo do Estoicismo e em que consiste cada parte, Como o estoicista enxerga a
ordem cósmica?
https://www.youtube.com/watch?v=cEvqT4QDoj0
https://www.youtube.com/watch?v=qS_OxRpKUrQ
https://www.youtube.com/watch?v=JV3ujJQGY0A&pp=0gcJCYcKAYcqIYzv
https://www.youtube.com/watch?v=jGlS7LaMLfw
https://www.youtube.com/watch?v=qAxT9xOqqeI
https://www.youtube.com/watch?v=GLYa6IYUIhM
Filo de Alexandria também é uma figura importante que tem
relação com o Logos. Foi um Filósofo judeu que tentou
harmonizar a filosofia grega com o Antigo Testamento. Para ele, o Logos era
um intermediário entre o Deus transcendente e o mundo criado.
O Logos de Filo e o de João.
- O Logos de Filo de Alexandria
é um conceito intermediário e metafísico. Ele descreve o Logos como a "Mente de Deus",
um projeto ou instrumento pelo qual o mundo foi criado, mas nunca como uma pessoa com quem se
pode ter um relacionamento. Para Filo, o Logos é uma abstração intelectual,
uma ponte necessária porque o Deus transcendente não poderia tocar a
matéria diretamente.
- João: Já o Logos de João é
plenamente pessoal. Ele não
é apenas um instrumento de criação, mas um Ser que possui vontade e
identidade.
A grande ruptura de
João com Filo e com a filosofia grega é a Encarnação: João afirma que o Logos "se fez
carne e habitou entre nós" (João 1:14) — algo que seria impensável
para Filo, que via o Logos como algo puramente espiritual e
superior à matéria.
Em resumo: O Logos de Filo é uma Ideia mediadora; o de João é uma Pessoa divina (Jesus).
4. Paralelo: Logos da Filosofia vs. Logos de João
|
Característica |
Logos da Filosofia Grega |
Logos de João (Cristologia) |
|
Natureza |
Impessoal; uma lei ou princípio racional. |
Pessoal; possui vontade e identidade (Jesus). |
|
Relação com o Mundo |
Uma força que organiza a matéria. |
O Criador de todas as coisas e a fonte de
vida. |
|
Encarnação |
Impossível; o divino era puro demais para a matéria. |
O Verbo se fez carne; habitou fisicamente entre os homens. |
|
Propósito |
Oferecer compreensão intelectual do universo. |
Trazer salvação, luz e revelação direta de
Deus. |
Enquanto o Logos grego era uma ideia
abstrata para explicar o mundo, o de João é uma Pessoa que entrou na história
para resgatá-lo.
TEXTO ÁUREO
“E o Verbo
se fez carne e habitou
entre nós, e vimos a sua glória,
como a glória do Unigênito
do Pai, cheio de graça
e de verdade.” (Jo
1.14).
NOTA:
(Grego Bíblico)
“Kai ho Logos
sarx egeneto kai eskēnōsen
en hēmin, kai etheasametha tēn doxan autou, doxan hōs monogenous para patros, plērēs charitos kai alētheias.”
João 1.14 descreve o mistério da Encarnação. Ele afirma
que o Logos (o Verbo eterno, que estava com Deus e era
Deus) não apenas apareceu ou "pareceu" humano, mas tornou-se carne
(sarx), assumindo a natureza humana plena.
O texto estabelece que
a glória de Deus não está mais confinada a um templo de pedra, mas reside
na pessoa de Jesus Cristo, onde a graça e a verdade se manifestam
plenamente à humanidade.
Pra facilitar pra você na sua aula vou explicar a etimologia
de cada termo:
No grego clássico, o Verbo
(Logos) significa à razão ou palavra.
No contexto de João é
o verbo é uma pessoa divina.
Na Escritura hebraica
aparece no lugar de
“verbo” o termo “DAVAR” traduzido por palavra.
Nos escritos do Targum (tradução ou interpretação das
escrituras judaicas (Tanakh) para o aramaico) o termo é Memra (Palavra criadora de Deus
no AT).
Memra representa a expressão
máxima do pensamento e da vontade de Deus personificada. (Cristo porta a Palavra de Deus em Si!)
Memra é uma palavra aramaica derivada da raiz “amar”,
que significa "dizer" ou "falar".
Assim como o grego Logos, Memra significa
"Palavra".
Os judeus pós-exílio tinham um profundo zelo pela
transcendência de Deus. Eles evitavam descrever Deus em termos humanos
(antropomorfismo). Por isso, quando as Escrituras diziam que "Deus
caminhava no jardim" ou "Deus falava", os tradutores dos
Targuns substituíam por "A Memra de Adonai".
- Exemplo: Em vez de dizer "Eles
ouviram a voz de Deus", o Targum dizia "Eles ouviram a Memra (Palavra)
de Adonai - do Senhor".
- A Memra era
uma forma de dizer que era Deus agindo, mas preservando Sua santidade e
mistério.
3. A Memra/Palavra tem quatro Funções no Pensamento Judaico
1. Agente da Criação: No Gênesis, Deus cria o mundo
através do "disse" (Sua Palavra). Os judeus entendiam que a Memra era
o instrumento pelo qual tudo veio à existência.
2. Agente da Revelação: Deus se comunicava com os
profetas e com o povo através da sua Palavra (Memra).
3. Agente da Salvação/Aliança: Era a Memra que
protegia Israel, que fazia alianças e que operava milagres de libertação (como
no Êxodo).
4. Presença de Deus (Shekinah): A Memra era a
personificação da presença divina entre os homens.
Em João 1.14 quando João escreve que "o Verbo (Logos) se fez carne", ele está dando um
"xeque-mate" teológico tanto em gregos quanto em judeus:
- Para
os Gregos: Ele
usa o termo Logos (Razão Universal).
- Para
os Judeus: Ele
evoca o conceito da Memra e Davar.
Ao dizer que a Memra se
fez carne, João está afirmando que aquele que criou o mundo, que apareceu a
Abraão e que guiou Israel pelo deserto, agora assumiu um corpo humano. Jesus não é apenas um mensageiro da
Palavra; Ele é a própria Palavra Criadora que se tornou
visível e tangível.
1. Habitou (Eskēnōsen): Deriva da palavra skēnē (tenda/tabernáculo).
Literalmente significa "armou sua tenda". É uma alusão
direta ao Tabernáculo do Êxodo, onde a presença de Deus (Shekinah) habitava no
meio do povo. Indica uma habitação temporária e humilde, mas com a presença de
Deus.
2. Glória (Doxa): Na Septuaginta e no NT, passou
a traduzir o hebraico Kabod, que significa peso, esplendor
e majestade. É a manifestação visível do caráter e do poder de Deus.
3. Unigênito (Monogenous): Composto por monos (único) e genos (espécie,
raça, tipo). Não significa "único
nascido" no sentido biológico de procriação, mas "único
em sua classe" ou "singular". Define a relação única e
incomparável entre o Filho e o Pai.
4. Graça (Charis): Relacionada ao verbo chairō (regozijar-se).
Significa favor imerecido, benevolência e beleza espiritual.
É a iniciativa de Deus de se dar (em Cristo) ao homem sem que haja mérito.
5. Verdade (Alētheia): Etimologicamente formada
por a (prefixo
de negação) e lēthō (esquecer/esconder).
Significa, portanto, "o
que não está oculto" ou "a realidade desvelada". Cristo é a
realidade final de Deus exposta aos homens, em contraste com as sombras e
figuras do passado.
Frase de impacto para fechar seu comentário:
"Em João 1:14, o
Deus que era 'invisível' e 'distante' no Antigo Testamento, decide 'armar sua
tenda' na nossa fragilidade humana, transformando a carne (sarx) no novo
endereço da glória divina."
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
- João 1.1-5,14.
1 — No
princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
2 — Ele
estava no princípio com Deus.
3 — Todas
as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
4 — Nele,
estava a vida e a vida era a luz dos homens;
5 — e
a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
14 — E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua
glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Nesta lição, estudaremos Jesus Cristo como o Verbo eterno de
Deus — plenamente divino, Criador e revelador do Pai. Com base no prólogo do
Evangelho de João (1.1-18), veremos que Ele é Deus desde a eternidade, agente
da criação, fonte de vida e luz dos homens. Destacaremos também a encarnação do
Verbo como a suprema revelação de Deus, cheia de graça e de verdade.
I. O VERBO COMO DEUS
ETERNO
1. O Verbo preexistente. O prólogo de João (dezoito
versículos iniciais) é chamado de “Hino Logos”. Na abertura: “No princípio, era o Verbo” (Jo 1.1a), as palavras
“no princípio” lembram o texto introdutório da Bíblia (Gn 1.1) e claramente ensinam que o Verbo sempre existiu. Esta é uma maneira de referir-se ao atributo da
Eternidade que só Deus possui. A expressão “Verbo” (gr. lógos) designa
Deus, referindo-se à divindade do Filho. Enquanto os gregos pensavam em um princípio
impessoal e os gnósticos num ser intermediário, João
apresenta o Logos como o próprio Deus Eterno —
Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Pai (Jo 1.14; 3.16). Antes de tudo o
que existe, o Verbo já existia. Jesus não começou a
existir em Belém, pois Ele é Eterno, coexistente com o Pai desde o princípio
(Cl 1.17).
2. O Verbo como pessoa
distinta. No texto bíblico, João afirma
que “o Verbo estava com Deus” (Jo 1.1b). A expressão
grega “pros ton
Theon” (com Deus) comunica relacionamento face a face, ou seja,
comunhão pessoal e eterna entre o Verbo (Filho) e Deus (Pai). Indica uma distinção de Pessoas
dentro da unidade da Trindade (Dt 6.4; 1Jo 5.7). O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são formas sucessivas de
aparecimento de uma Pessoa, mas são Pessoas coexistentes desde “o
princípio” (Jo 1.2; 17.5).
3. O Verbo é da mesma essência do Pai. Ainda no versículo de abertura, João revela “o Verbo era Deus” (Jo 1.1c). Aqui, a palavra grega para Deus (Theós) aparece sem o artigo definido — fato que tem gerado discussões exegéticas. Porém, na estrutura grega, a ausência do artigo não implica indefinição ou inferioridade. Essa construção enfatiza a qualidade ou a natureza do sujeito. A omissão do artigo não significa “um deus”, como sustentam traduções heréticas, mas é um indicativo da natureza do Verbo. Esclarece que o Verbo compartilha da mesma essência divina (Jo 10.30; 14.9). Desse modo, o Verbo é como o Pai: eterno (Jo 1.2) e criador (Jo 1.3). Portanto, a expressão “o Verbo era Deus” ensina que Jesus é da “mesma substância” do Pai, isto é, Deus em sua totalidade (Cl 1.15; 2.9).
SINOPSE I
O Verbo é eterno, distinto do Pai e da mesma essência divina,
plenamente Deus.
II. O VERBO COMO CRIADOR
1. O agente da
criação. A
Bíblia declara que “no
princípio, criou Deus” (Gn 1.1a). A expressão “criou” traduz a palavra hebraica ‘bārā’, termo reservado à atividade criadora de Deus (Gn
1.21,27; 2.4; 5.1,2; 6.7). ‘bārā’ indica que o universo foi criado por Deus a partir do nada — do
latim ex nihilo (Hb 11.3). A doutrina de Deus como Criador possui fundamentos
tanto no Antigo Testamento (Sl 33.6; Is 45.12; Ne 9.6) quanto no Novo
Testamento (At 17.24; Rm 1.20; Ap 4.11). Nesse sentido, João apresenta
Jesus também como Criador: “Todas
as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo
1.3). Este versículo enfatiza a divindade do Verbo, uma vez que a criação é obra exclusiva de Deus (Cl 1.16,17).
Desse modo, o Filho é o agente ativo na criação do universo (Hb 1.2).
2. A fonte da vida. O apóstolo João enfatiza com
clareza que “nele, estava
a vida” (Jo 1.4a), referindo-se ao Verbo eterno — Jesus Cristo. Esta declaração revela que o Verbo é a fonte absoluta e
originária de toda forma de vida, tanto física quanto espiritual e eterna (Jo
3.36; 1Jo 5.11,12). A expressão denota a autossuficiência do Verbo, uma
característica específica da divindade (At 17.25). Jesus não depende de nada ou ninguém para viver.
Ele compartilha da mesma substância divina: “Porque,
como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si
mesmo” (Jo 5.26). Essa verdade afirma que a vida, eterna e imutável, que
está no Pai está igualmente no Filho, apontando para a mesma essência dentre as
Pessoas da Trindade (Jo 10.30; 14.9; 17.5).
NOTA para VIDA em João 1,
14
João 1:4 em grego bíblico (Koiné) transliterado é:
"en
autō zōē ēn, kai hē zōē ēn to phōs tōn anthrōpōn"
(Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens)
Como a gente vê no texto grego a palavra "Vida" é
traduzida do original
ζωή (zōē), e se refere-se à vida no sentido absoluto, o princípio
vital ou a essência da vida. E ela se origina em Jesus no
Verbo Divino.
No Novo Testamento, João usa quase
exclusivamente zōē para descrever a vida espiritual, divina e
eterna que procede de Deus. É a vida em sua plenitude moral e espiritual, em
contraste com a mera existência biológica.
- Contraste
com Bios (βίος): Enquanto zōē é
a essência, bios refere-se à vida física, à duração da
vida ou aos recursos necessários para sustentar o corpo.
- Significado
Teológico: Em
João 1:4, o uso de zōē indica que a vida não é apenas
algo que o Logos (Jesus) possui, mas algo que Ele é. A
etimologia aponta para uma força vital que é a fonte de toda a existência,
tanto física quanto espiritual
3. A luz dos homens. O texto bíblico diz que “a vida era a luz dos homens; e
a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam” (Jo 1.4b,5).
A metáfora da Luz simboliza o caráter de Deus, porque nEle não há trevas alguma
(1Jo 1.5). Nesse contexto, Jesus é apresentado como a Luz verdadeira (Jo 1.9).
Ele não apenas possui luz; Ele é a própria Luz (Jo 8.12). Ele dissipa as
trevas, ilumina os perdidos e revela o pecado (Mt 4.16; Jo 3.19). A declaração
“as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1.5 — NAA) mostra que
as forças do mal não têm poder sobre Cristo. O verbo grego katalambánō pode
ser traduzido como “compreender”, “apoderar” ou “dominar”, e nesse caso
expressa que as trevas do pecado não podem resistir à Luz do Filho de Deus (Rm
13.12).
NOTA para João 1: 4-5
"en autō zōē ēn, kai hē zōē ēn to phōs tōn anthrōpōn;
kai to phōs en tē skotia phainei, kai hē skotia auto ou katelaben."
Divisão por termos (para facilitar sua leitura):
- v. 4: en autō (nele)
- zōē
ēn (a vida
estava)
- kai
hē zōē ēn (e
a vida era)
- to
phōs (a
luz)
- tōn
anthrōpōn (dos
homens).
- v. 5: kai to phōs (e
a luz)
- en
tē skotia (nas
trevas)
- phainei (brilha/resplandece)
- kai
hē skotia (e
as trevas)
- auto
ou katelaben (não
a compreenderam).
Phōs (φῶς) é a palavra para "luz", que
está intimamente ligada à zōē (vida).
Está em contraste com Skotia
(σκοτία) - "trevas"
ou "escuridão",
que pode ser usada tanto no sentido físico quanto moral/espiritual. Aqui é sentido moral/espiritual
Katelaben (κατέλαβεν) é um verbo que pode significar "compreender",
"alcançar" ou "vencer/extinguir". João utiliza esse termo para
mostrar que a escuridão/trevas não compreenderam a Luz/Cristo manifestado em
carne nem conseguiu dominar ou vencer essa luz.
SINOPSE II
Como Criador, o Verbo é fonte de vida e luz, e nenhuma força de trevas pode prevalecer contra Ele.
III. O VERBO COMO
REVELAÇÃO DO PAI
1. A encarnação do Verbo. João também apresenta o Verbo
como o supremo meio de autorrevelação do Pai: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e
vimos a sua glória,
como a glória do Unigênito
do Pai, cheio de graça
e de verdade.” (Jo
1.14).
“Kai ho Logos
sarx egeneto kai eskēnōsen
en hēmin, kai etheasametha tēn doxan autou, doxan hōs monogenous para patros, plērēs charitos kai alētheias.”
Esta afirmação marca o ponto culminante da revelação divina: o Verbo se tornou homem sem deixar de ser Deus (Fp
2.6-8). O termo
grego eskēnōsen (habitou) significa literalmente “armou sua
tenda”.
NOTA: Habitou (Eskēnōsen): Deriva de skēnē (tenda/tabernáculo).
Literalmente significa "armou sua tenda".
Essa linguagem faz alusão ao Tabernáculo (Êx 25.8,9), onde a
presença de Deus habitava no meio do povo de Israel. O corpo de Cristo é assim comparado a esse
tabernáculo: nele, a glória de Deus se manifestou visível entre os homens (Cl
2.9). Ele revela a união hipostática das
duas naturezas do Filho: divina e humana. Ele é o Emanuel, o Deus
conosco (Mt 1.23) — a plena revelação do Pai (Hb 1.1).
2. A plenitude da graça e
da verdade. João,
testemunha ocular da encarnação declara ser o Verbo a “glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de
verdade” (Jo 1.14b).
Grego: “kai etheasametha tēn doxan autou, doxan hōs monogenous para patros, plērēs charitos kai alētheias.
A palavra “glória” (gr. dóxa) remete
ao conceito da shekinah — a presença gloriosa de Deus entre o
seu povo (Êx 40.34,35). Porém, enquanto a glória na
Antiga Aliança se manifestava parcialmente, em Cristo ela se mostra plenamente
(Jo 2.11; 17.1-5). A frase “cheio de graça e de verdade/plērēs charitos kai alētheias” revela o conteúdo dessa glória.
Diferente da Lei dada por Moisés que mostrava o
pecado e julgava o pecador (Jo 1.17a), Cristo encarnou a própria graça
salvadora e a verdade eterna. Ele não apenas
ensina a verdade — Ele é a verdade (Jo 14.6). E
não apenas oferece graça — Ele é a plenitude da graça de Deus, uma provisão
contínua que se manifestou salvadora a todos os homens (Tt 2.11).
A palavra grega alētheia (ἀλήθεια), traduzida como
"verdade", possui uma etimologia interessante:
É formada pelo prefixo de negação "a-" ("não" ou
"sem") e pela raiz do verbo "lanthanō" (λανθάνω), que
significa "esconder", "ocultar" ou "estar
esquecido".
Literalmente, alētheia significa "não-ocultamento", "desvelamento" ou "aquilo
que não está escondido".
Assista esse vídeo pra entender melhor palavra grega alētheia (ἀλήθεια)
https://www.youtube.com/watch?v=gefT2S2kwzU
3. O revelador do Deus
invisível. No último versículo de seu prólogo, João afirma: “Deus
nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o
fez conhecer” (Jo 1.18). Aqui, o apóstolo enfatiza que Deus é invisível
e inacessível (Êx 33.20; 1Tm 6.16). No entanto, o Verbo o revelou de forma plena e perfeita.
A expressão “Deus unigênito” (gr. monogenēs theos) significa literalmente “o Deus único gerado”. Refere-se a Cristo — o Filho da mesma substância (gr. homoousios) do Pai. Essa declaração reafirma a eternidade e a plena divindade do Filho. Cristo é a autorrevelação completa do Pai: “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9).
SINOPSE III
O Verbo encarnado revela de forma plena o Pai, manifestando
graça e verdade.
VERDADE PRÁTICA
Jesus Cristo, o Verbo eterno, é a revelação plena e visível
de Deus ao mundo, manifestando graça, verdade e a glória do Pai.
APLICAÇÃO
Jesus é o Verbo eterno e Criador que revela plenamente a face
de Deus, exigindo nossa total adoração e fidelidade à verdade do Evangelho.
CONCLUSÃO
Jesus Cristo é o Deus unigênito que revela o
Pai. Nele, a glória, a graça e a verdade de Deus são plenamente manifestas. A encarnação do Verbo não é apenas
uma doutrina essencial da fé cristã, mas também um chamado à adoração e
proclamação daquEle que é a imagem visível do Deus invisível. O Senhor Jesus é
a perfeita revelação do Pai à humanidade. Que cada crente reconheça que
conhecer a Cristo é conhecer o próprio Deus, e que proclamar essa verdade é
tornar a glória do Pai conhecida no mundo.
REVISANDO O CONTEÚDO
1. Como
é chamado o prólogo de João (dezoito versículos iniciais)?
“Hino Logos.”
2. O
que os gregos pensavam a respeito do Verbo?
Que o Verbo era uma força ou ideia, e não plenamente pessoal
e divino.
3. Qual
é o texto bíblico em que João apresenta Jesus também como Criador?
João 1.3.
4. A
declaração “nele, estava a vida” (Jo 1.4a), referindo-se a Jesus Cristo, revela
o que a respeito do Verbo?
Que Ele é a fonte absoluta e originária de toda forma de
vida.
5. A
expressão “Deus Unigênito” significa literalmente o quê?
“O Deus único gerado” — o Filho da mesma essência do Pai.