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Ágnōstō Theō: Quando o Evangelho Encontra uma porta
cultural.
Bem vindos a um mergulho
histórico e teológico no momento em que Paulo transformou o Areópago em
púlpito. Vou mostrar quatro curiosidades que talvez você nunca ouviu e conexões
surpreendentes entre filosofia grega e fé cristã.
23porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: Ao Deus Desconhecido. Esse, pois, que vós honrais não o conhecendo é o que eu vos anuncio. (Atos 17:22–23)
έρχομαι γὰρ καὶ ἀναθεωρῶ τὰ σεβάσματά ὑμῶν, εὗρον δὲ καὶ βωμὸν ἐν ᾧ ἐπεγέγραπτο· ἈΓΝΩΣΤΩ ΘΕΩ. Ὃ οὖν ἀγνοοῦντες εὐσεβεῖτε, τοῦτο ἐγὼ καταγγέλλω ὑμῖν. (Atos 17:22–23)
Dierchomai gar kai anatheōrō ta sebasmata hymōn, heuron de kai bōmon en hō epegegrapto: AGNŌSTŌ THEŌ. Ho oun agnoountes eusebeite, touto egō katangellō hymin. (Atos 17:22–23)
Quatro curiosidades fascinantes sobre Atos 17:22–23
O episódio de Paulo no Areópago, registrado em Atos dos Apóstolos 17:22–23, é uma das passagens mais ricas em contexto histórico, filosófico e teológico do Novo Testamento. Neste artigo, vamos explorar quatro curiosidades que revelam a profundidade desse momento — quando o Apóstolo confronta a religiosidade ateniense com uma abordagem ousada e estratégica.
Contexto: Paulo em Atenas
Enquanto esperava por Silas e Timóteo em Atenas, Paulo se inquieta ao ver a cidade entregue à idolatria. Ele começa a dialogar com judeus na sinagoga e com filósofos epicureus e estoicos na praça pública. Por anunciar “Jesus e a ressurreição”, os atenienses o interpretam como um “pregador de deuses estranhos” (Atos 17:16–18), e o levam ao Areópago — o antigo tribunal supremo da cidade — para que explique sua doutrina.
1. Sócrates e
o Areópago: um eco histórico
Cinco séculos antes de Paulo, o filósofo Sócrates foi julgado e condenado à morte por “corromper a juventude” e “introduzir novos deuses”, segundo os relatos de Platão e Xenofonte. O local do julgamento? O mesmo Areópago onde Paulo agora se encontra.
Nota etimológica:
Areópago vem do grego Areios Pagos, que significa “Colina de Ares” - o deus da guerra. Era o local onde os arcontes (magistrados) se reuniam desde tempos antigos. Embora tenha perdido poder político após as reformas de Sólon (século VI a.C.), ainda mantinha prestígio e autoridade cerimonial na era romana.
2. Paulo foi
“levado” ao Areópago — por livre vontade?
Atos 17:19 diz: “'E, tomando-o, o levaram ao Areópago,
dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas?
O verbo “levar” (grego: epilambanō)
sugere mais do que um convite — pode indicar um ato de coerção, como quem
conduz alguém para averiguação. Paulo, portanto,
não foi apenas convidado a falar, mas intimado a se explicar.
Texto em Grego Bíblico (Atos 17:19)
καὶ ἐπιλαβόμενοι αὐτοῦ ἤγαγον ἐπὶ τὸν Ἀρεῖον Πάγον λέγοντες· Δυνάμεθα γνῶναι τίς ἡ καινὴ αὕτη ἡ ὑπὸ σοῦ λαλουμένη διδαχή;
Transliteração
Kai epilabomenoi autou ēgagon epi ton Areion Pagon legontes: Dynametha gnōnai tis hē kainē hautē hē hypo sou laloumenē didachē?
Reflexão:
Dado o histórico de Sócrates, Paulo corria o risco de ser acusado de heresia ou subversão religiosa. Sua defesa precisava ser não apenas teológica, mas também diplomática.
NOTA: Etymologia e Significado de ἐπιλαμβάνομαι
(epilambanō)
Forma verbal: A raiz de (epilambanō) é λαμβάνω (lambanō), que significa “tomar”, “pegar”, “receber”.
Prefixo: ἐπι- (epi) é um prefixo que significa “sobre”, “em cima de”, “contra” ou “em direção a”.
Uso em Atos 17:19 - Aqui, o verbo sugere mais do que um simples convite.
O uso de epilambanō
implica um ato de coerção
ou firmeza, como quem
segura alguém para conduzi-lo — quase como uma “intimação”.
OBs: No direito é a força exercida pelo Estado para fazer valer o direito; coibição.
Nota contextual: Esse mesmo verbo aparece em outros textos com conotação de prisão ou intervenção física, como em Lucas 23:26, quando Simão de Cirene é “tomado” para carregar a cruz de Jesus.
Implicações teológicas e narrativas
O uso de epilambanō em Atos 17:19 reforça a ideia de que Paulo não foi apenas convidado a falar — ele foi levado com autoridade, talvez até com suspeita. Isso aproxima ainda mais sua situação da de Sócrates, que também foi levado ao Areópago para se explicar diante das autoridades.
3. O Deus
Desconhecido: uma ponte entre culturas
Paulo inicia seu discurso com uma observação astuta: “Achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO (Ágnōstō Theō)”. Ele então afirma: “Esse, pois, que vós honrais não o conhecendo é o que eu vos anuncio” (Atos 17:23).
Estratégia
retórica:
Ao identificar o Deus de Israel com o “Deus Desconhecido” dos atenienses, Paulo evita a acusação de introduzir novas divindades. Ele se apropria de um símbolo local para apresentar sua mensagem — uma jogada brilhante de contextualização missionária.
4. Epimênides
e a origem do altar
Séculos antes, por volta de 595 a.C., o filósofo cretense Epimênides teria visitado Atenas durante uma epidemia. Segundo Diógenes Laércio, os atenienses consultaram o oráculo de Delfos, que recomendou buscar Epimênides para purificar a cidade. Ele teria sugerido erguer altares “ao deus desconhecido”, como forma de apaziguar divindades não identificadas.
Fonte adicional: O livro O Fator Melquisedeque, de Don Richardson, narra esse evento sob uma perspectiva missionária, mostrando como Deus pode preparar culturas para receber o evangelho mesmo antes da chegada dos missionários.
Conclusão
O discurso de Paulo no Areópago é um exemplo magistral de como fé,
filosofia e diplomacia podem se entrelaçar. Ao invocar o “Deus Desconhecido”,
ele não apenas evita a condenação, mas também planta as sementes do evangelho
em solo filosófico. Um momento que ecoa tanto a coragem de Sócrates quanto a
sabedoria de Epimênides — e que continua inspirando até hoje.
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A Narrativa de: O Fator Melquisedeque de Don Richardson
Os Atenienses.
A cidade de Atenas em meio a uma praga que não cessava foi ajudada por
um homem natural de Creta, chamado Epimênides, o fato encontra-se registrado
por um autor grego do século III A.D, Diógines Laércio,
na obra “The Lives of Eminent Philosophers” (A vida dos
filósofos eminentes), também em “Leis”, de Platão e
na obra “The Art of Rhetorica” de (Aristóteles). Em alguma
época, durante o sexto século antes de Cristo, numa reunião do conselho na
Colina de Marte, em Atenas…
– “Diga-nos, Nicias, que aviso o oráculo de Pítias lhe deu? Por que esta
praga caiu sobre nós? E por que os inúmeros sacrifícios realizados de nada
adiantaram?” O impassível Nicias olhou de frente o presidente do conselho.
– “A sacerdotisa declara que nossa cidade se encontra sob uma terrível
maldição. Um certo deus a colocou sobre nós por causa do medonho crime de
traição do rei Megacles contra os seguidores de Cylon.
– ‘‘E verdade! Lembro-me agora”, disse sombriamente outro membro do
conselho. “Megacles obteve a rendição dos seguidores de Cylon com uma promessa
de anistia, depois violou prontamente sua própria palavra e os matou! Mas qual
é o deus que ainda nos condena por esse crime? Já oferecemos sacrifícios de
expiação a todos os deuses!”
– “Não é bem assim”, replicou Nicias. “A sacerdotisa afirma
que resta ainda um deus a ser apaziguado.”
– “Quem poderia ser?” perguntaram os anciãos, olhando
incrédulos para Nicias.
– “Não posso contar-lhes”, respondeu ele. “O próprio oráculo
parece não saber o seu nome. Ela disse apenas que…” Nicias fez uma
pausa, observando as faces ansiosas de seus colegas. Enquanto isso, da
cidade enlutada a volta deles ouvia-se o eco de milhares de cânticos
fúnebres.
Nicias continuou: “…precisamos enviar um navio imediatamente a
Cnossos, na ilha de Creta, e trazer de lá para Atenas um homem chamado
Epimênides. A sacerdotisa assegurou-me que ele saberá como
apaziguar esse deus ofendido, livrando assim a nossa cidade.
– “Não existe alguém suficientemente sábio aqui em Atenas?” Esbravejou
um ancião indignado. “Temos de apelar para um… um estrangeiro?”
– “Se conhece algum grande sábio em Atenas pode chama-lo”,
disse Nicias. “Caso contrário, cumpramos simplesmente as ordens
do oráculo.”
Um vento frio – frio como se tocado pelos dedos gélidos do
terror que varria Atenas, fez-se presente na câmara de mármore
branco do conselho na Colina de Marte (onde ficava o
Areópago). Um ancião após outro aconchegou-se mais em seu manto de
magistrado e refletiu sobre as palavras de Nicias.
– “Va em nosso nome, meu amigo”, disse o presidente do conselho.
– “Traga esse Epimênides, se atender ao seu pedido. E se ele livrar
nossa cidade, nós o recompensaremos.”
Os demais membros do conselho concordaram. O calmo Nicias, de voz
suave, levantou-se, inclinando-se diante da assembleia e deixando a câmara. Ao
descer a Colina de Marte, ele se encaminhou para o porto de Pireu, que ficava a
13 km de distância, na Baia de Falerom.
Um navio achava-se ali ancorado.
Epimênides desceu agilmente para a terra, em Pireu, seguido de Nicias.
Os dois homens encaminharam-se de imediato para Atenas, recobrando aos
poucos a força das pernas depois da longa viagem por mar, desde Creta. Ao
entrarem na já mundialmente famosa “cidade dos filósofos”, os sinais da praga
eram vistos por toda a parte.
Mas Epimênides observou outra coisa:
– “Nunca vi tantos deuses!” exclamou o cretense para o seu guia,
piscando surpreso. Falanges ladeavam os dois lados da estrada que saia do
Pireu. Outros deuses, centenas deles, adornavam uma escarpada rochosa chamada
acrópole. Uma geração mais tarde, os atenienses construíram ali o Partenon.
– “Quantos são os deuses de Atenas?” inquiriu Epimênides.
– “Várias centenas pelo menos!” replicou Nicias.
– “Várias centenas?” foi a exclamação espantada de Epimênides.
– “Aqui e mais fácil encontrar deuses do que homens!”
– “Tens razão!” riu o conselheiro Nicias. “Não sei quantos
provérbios já foram feitos sobre ‘Atenas, a cidade saturada de deuses’.
Com a mesma facilidade que se tira uma pedra da pedreira,
outro deus e trazido para a cidade!”
Nicias parou repentinamente, refletindo sobre o que acabara de dizer.
“Todavia”, começou pensativo, “o oráculo de Pitias declara que os
atenienses precisam apaziguar ainda um outro deus.
– E você, Epimênides, deve promover a intercessão
necessária. Ao que parece, apesar do que eu disse, nós, atenienses, ainda
precisamos de mais um deus!”
Jogando a cabeça para trás e rindo, Nicias exclamou:
“Realmente, Epimênides, não consigo adivinhar quem poderia ser esse outro
deus. Os atenienses são os maiores colecionadores de deuses no mundo! Já
saqueamos as teologias de muitos povos das vizinhanças, apoderamo-nos de
toda divindade que possamos transportar para a nossa cidade, por terra ou
por mar!”
“Talvez seja esse o seu problema”, disse Epimênides com
um ar misterioso.
Nicias piscou os olhos para o amigo, sem compreender. Como que desejasse
um esclarecimento desse último comentário, mas alguma coisa na atitude de
Epimênides o silenciou. Momentos depois chegaram a um pórtico com piso de
mármore, junto a câmara do conselho na Colina de Marte. Os anciãos de Atenas já
haviam sido avisados e o conselho os esperava.
– “Epimênides, agradecemos sua…” começou o presidente
da assembleia.
– “Sábios anciãos de Atenas, não há necessidade de agradecimentos.”
Epimênides interrompeu. “Amanhã, ao nascer do sol, tragam um
rebanho de ovelhas, um grupo de pedreiros e uma grande quantidade de pedras e
argamassa até a ladeira coberta de relva, ao pé desta rocha sagrada. As
ovelhas devem ser todas sadias e de cores diferentes – algumas brancas, outras
pretas. Vocês não devem deixa-las comer depois do descanso noturno. É
preciso que sejam ovelhas famintas! Vou agora descansar da viagem.
Acordem-me ao amanhecer.”
Os membros do conselho trocaram olhares curiosos,
enquanto Epimênides cruzava o pórtico em direção a um quarto
sossegado, enrolando-se em seu manto como num cobertor e sentando-se
para meditar.
O presidente voltou-se para um dos membros jovens do conselho.
– “Veja que tudo seja feito como ele ordenou”, disse ele.
– “As ovelhas estão aqui”, falou o membro jovem, humildemente.
Epimênides, despenteado e ainda meio dormindo, saiu de seu descanso e
seguiu o mensageiro até a ladeira que ficava na base da Colina de Marte.
Dois rebanhos – um de ovelhas pretas e brancas e outro de conselheiros,
pastores e pedreiros – achavam-se a espera, debaixo do sol que nascia. Centenas
de cidadãos, desfigurados por outra noite de vigília cuidando dos doentes
atingidos pela praga e chorando pelos mortos, galgaram os pequenos outeiros e
ficaram observando ansiosos.
“Sábios anciãos”, começou Epimênides, “vocês já se esforçaram muito
ofertando sacrifícios aos seus numerosos deuses; entretanto, tudo se
mostrou inútil. Vou agora oferecer sacrifícios baseado em três suposições bem
diferentes das suas. Minha primeira suposição…”
Todos os olhos estavam fixos no cretense de elevada estatura; todos os
ouvidos atentos para captar suas próximas palavras.
“ …é que existe ainda outro deus interessado na
questão desta praga – um deus cujo nome não conhecemos e que não está,
portanto, sendo representado por qualquer ídolo em sua cidade.
Segundo, vou supor também que este deus e bastante poderoso – e
suficientemente bondoso para fazer alguma coisa a respeito da praga, se apenas
pedirmos a sua ajuda.”
– “Invocar um deus cujo nome o desconhecido?” exclamou um dos
anciãos. “Isso e possível?”
“A terceira suposição e a minha resposta à sua pergunta”,
replicou Epimênides. “Essa hipótese e muito simples. Qualquer
deus suficientemente grande e bondoso para fazer algo a respeito da praga
e também poderoso e misericordioso para nos favorecer em nossa ignorância –
se reconhecermos a mesma e o invocarmos!”
Murmúrios de aprovação misturaram-se com o balido das
ovelhas famintas. Os anciãos de Atenas jamais tinham ouvido essa
linha de raciocínio antes. Mas, por que, perguntavam eles, as ovelhas
deviam ser de cores diferentes?
“Agora!” Gritou Epimênides, “preparem-se para soltar as ovelhas na
ladeira sagrada! Uma vez soltas, deixem que cada animal paste onde quiser,
mas façam com que seja seguido por um homem que o observe cuidadosamente.”
A seguir, levantando os olhos para o céu, Epimênides orou com voz
profunda e cheia de confiança: “O, tu, deus desconhecido! (Agnostho
Theo) Contempla a praga que aflige esta cidade! E se de fato tens
compaixão para perdoar-nos e ajudar-nos, observa este rebanho de ovelhas!
Revela tua disposição para responder, eu peço, fazendo com que qualquer ovelha
que te agrade deite na relva em vez de pastar. Escolha as brancas se elas te
agradarem; as pretas, se te causarem prazer. As que escolheres serão
sacrificadas a ti – reconhecendo nossa lamentável ignorância do teu nome!”
Epimênides sentou-se na grama, inclinou a cabeça e fez sinal aos
pastores que guardavam o rebanho. Estes vagarosamente se afastaram. Com
rapidez e voracidade, as ovelhas se espalharam pela colina, começando a pastar.
Epimênides ficou ali sentado como uma estátua, com os olhos baixos.
“E inútil”, murmurou baixinho um conselheiro. “Mal amanheceu e raras
vezes vi um rebanho tão faminto. Nenhum animal vai deitar-se antes de
encher o estomago e quem acreditará então que foi um deus que o levou a
isso?”
Epimênides deve ter escolhido esta hora do dia
deliberadamente!” respondeu Nicias. “Só assim poderemos saber que a ovelha
que se deitar o fará em obediência a vontade desse deus
desconhecido, e não por sua própria inclinação!”
Mal Nicias terminara de falar quando um pastor gritou: “Olhem!” Todos os
olhos se voltaram para ver um carneiro dobrar os joelhos e deitar-se na
relva.
“Eis aqui outro!” bradou um conselheiro surpreso, fora de si por causa
do espanto. Em poucos minutos algumas das ovelhas se achavam acomodadas sobre a
relva suculenta demais para que qualquer herbívoro faminto pudesse
resistir – em circunstancias normais!
“Se apenas uma deitasse, teríamos dito que estava doente!” Exclamou o
presidente do conselho. “Mas isto! Isto só pode ser uma resposta!”
Com os olhos cheios de reverencia, ele se voltou, dizendo a Epimênides:
“O que faremos agora?”
“Separem as ovelhas que estão descansando”, replicou o
cretense, levantando a cabeça pela primeira vez desde que invocara o
deus desconhecido, “e marquem o lugar onde cada uma se acha.
Façam depois com que os pedreiros levantem altares – um altar em cada
ponto onde as ovelhas descansaram!”
Pedreiros entusiastas começaram a fazer argamassa e no final da tarde
ela já havia endurecido o suficiente. Todos os altares se achavam preparados
para uso.
“Qual o nome do deus que gravaremos sobre esses
altares?”
perguntou um dos conselheiros do grupo mais jovem, excessivamente
ansioso. Todos se voltaram para ouvir a resposta do cretense.
“Nome?” Repetiu Epimênides, como se refletindo. “A divindade, cuja ajuda
buscamos, agradou-se em responder a nossa admissão de ignorância. Se
agora pretendermos mostrar conhecimento, gravando um nome quando na
verdade não temos a menor ideia a respeito dele, temo que vamos apenas
ofende-la!”.
“Não podemos correr esse risco”, concordou o presidente do conselho.
“Mas com certeza deve haver um meio apropriado de dedicar cada
altar antes de usá-lo.”
“Tem razão, sábio conselheiro”, declarou Epimênides com um sorriso raro.
“Existe um meio. Inscrevam simplesmente as palavras “agnosto
theo – um deus desconhecido – no lado de cada altar. Nada
mais é necessário.” Os atenienses gravaram as palavras recomendadas
pelo conselheiro cretense. A seguir, sacrificaram cada ovelha “dedicada” sobre
o altar marcando o ponto em que a mesma havia se deitado. A noite caiu. Na
madrugada do dia seguinte os dedos mortais da praga sobre a cidade já se haviam
afrouxado. No decorrer de uma semana, os doentes sararam. Atenas encheu-se de
louvor ao “Deus desconhecido” de Epimênides e também a ele, por ter prestado
socorro tão surpreendente de um modo verdadeiramente engenhoso.
Cidadãos agradecidos colocaram festões de flores ao redor do grupo
despretensioso de altares na encosta da Colina de Marte. Mais tarde, eles
esculpiram uma estátua de Epimênides sentado e a colocaram diante de um de seus
templos.
Com o correr do tempo, porém, o povo de Atenas começou a esquecer-se da
misericórdia que o “deus desconhecido” de Epimênides lhes concedera. Seus
altares na colina foram negligenciados e eles voltaram a adorar centenas de
deuses que se mostraram incapazes de remover a maldição da cidade. Vândalos
demoliram parte dos altares e removeram pedras de outros. O mato e o musgo
começaram a crescer sobre as ruínas até que… Certo dia, dois anciãos que se
lembravam da importância dos altares pararam diante deles a caminho do
conselho. Apoiados em seus bordões eles contemplaram pensativos as relíquias
ocultas por trepadeiras. Um dos anciãos retirou um pouco do musgo e leu a
antiga inscrição encoberta por ele: “Agnosto theo”.
Demas – você se lembra?”
“Como poderia esquecer?” respondeu Demas. “Eu era o membro jovem do
conselho que ficou acordado a noite inteira para certificar-me de que o
rebanho, as pedras, a argamassa e os pedreiros estariam prontos ao nascer do
sol!”
“E eu”, replicou o outro ancião, “era aquele outro membro jovem e
ansioso que sugeriu que fosse gravado em cada altar o nome de algum deus! Que
tolice”.
Ele fez uma pausa, mergulhado em seus pensamentos, acrescentando a
seguir: “Demas, você talvez me considere sacrílego, mas não posso deixar de
sentir que se o “Deus desconhecido” de Epimênides se revelasse abertamente a
nós, logo deixaríamos de lado todos os outros!” O ancião barbudo balançou o
bordão com certo desprezo na direção dos ídolos surdos e mudos que, em fileira
após fileira, cobriam a crista da acrópole, em número maior do que nunca antes.
“Se Ele jamais vier a revelar-se”, disse Demas
pensativamente, “como nosso povo saberá que não é um estranho, mas um Deus
que já participou dos problemas de nossa cidade?”
“Acho que só existe um meio”, replicou o primeiro ancião.
Devemos preservar pelo menos um
desses altares como evidência para a posteridade. E a história de
Epimênides deve, de alguma forma, ser mantida viva entre as nossas tradições.”
“Uma grande ideia a sua!” entusiasmou-se Demas. “Olhe! Este ainda está
em boas condições. Vamos empregar pedreiros para poli-lo e amanhã lembraremos
todo o conselho dessa antiga vitória sobre a praga. Faremos passar uma moção
para incluir a manutenção de pelo menos este altar entre as despesas perpetuas
de nossa cidade!”
Os dois anciãos apertaram-se as mãos para fechar o acordo e, com braços
dados, seguiram caminho abaixo, batendo alegremente os bordões contra as pedras
da Colina de Marte.
O relato acima baseou-se principalmente em uma tradição relatada como
história por Diógenes Laércio, um autor grego do século III A.D., numa obra
clássica denominada The Lives oi Eminent Philosophers (As
Vidas de Filósofos Eminentes) (vol. 1, p. 110). Outros detalhes nesta
referência concernente a causa da maldição foram obtidos de uma nota de rodapé
de um editor sobre a obra “The Art of Rhetoric”, (“A Arte da
Retorica”), livro 3, 17.10 de Aristóteles, encontrada na “Loeb Classical
Library”, traduzida por J. H. Freese e publicada em Cambridge, estado de
Massachusetts.
Notas:
A explicação de que o próprio oraculo de Pitias ordenou aos atenienses
que mandassem buscar Epimênides faz parte da menção anterior das “Leis” de
Platão.
Diógenes Laercio não menciona que as palavras agnosto theo estavam
escritas nos altares de Epimênides. Ele declara apenas que “em diferentes
partes da Ática podem ser vistos altares sem qualquer nome gravado,
servindo de memoriais para esta expiação”.
Dois outros escritores da antiguidade – Pausanias, em sua obra Description
of Greece (Descricao da Grecia) (vol. 1, 1.4), e Filostrato, em
sua Appolonius of Tyana (Apolonio de Tiana) – referem-se,
porém, a “altares a um deus desconhecido”, sugerindo que uma inscrição
nesse sentido estivesse gravada neles.
O fato de tal inscrição achar-se em pelo menos um altar em Atenas e
confirmado por Lucas, o Evangelista e historiador do primeiro século. Em Atos
ao descrever as aventuras de Paulo, o famoso apostolo cristão, Lucas menciona
um encontro que pode ser esclarecido de modo impressionante pela história de
Epimênides, já referido:
“Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espirito de revoltava, em
face da idolatria dominante na cidade” (At 17.16).
Daí, até hoje altares podem ser encontrados em
diferentes partes da Ática sem nome inscrito sobre
elas, que são memoriais desse livramento.
[1] Arconte ( grego : ἄρχων , romanizado : árchōn , plural: ἄρχοντες, árchontes )
é uma palavra grega que significa “governante”, frequentemente
usada como o título de um cargo público específico.